A libertação não veio do céu, nem das mãos de Isabel

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A libertação não veio do céu, nem das mãos de Isabel

Eu começo estas mal traçadas (digitadas!) linhas citando a sempre certeira Deputada Leci Brandão. Em 2018, discursando sobre os, então, 130 anos da assinatura da famigerada Lei Áurea. Naquela feita, a nobre parlamentar falou sobre como a data é pouco significativa para a comunidade negra brasileira, sobretudo em seus efeitos na sociedade. Praticamente nulos. Na verdade, foi ainda pior, porque ao invés de proporcionar quaisquer medidas de inclusão do recém-não-mais-escravizado como parte integrante e ativa da sociedade, fez questão de tentar varrer pra debaixo do tapete os resquícios de escravidão.

Estamos falando de objetos, situações e pessoas. Por exemplo, o ato de Ruy Barbosa – que tocou fogo em documentos daquele tempo tenebroso – não foi uma tentativa de apagar o passado em prol de um futuro brilhante. Se foi, amizade, foi muito destrambelhado, algo que não se espera da Águia de Haya. Surtiu muito mais um efeito de destruir provas, mas enfim, estou divagando. A questão aqui é que meu principal metiê, afora o jornalismo, é a música. Então, vim elencar algumas canções pra reflexão. Justamente, seguindo a sugestão de Leci Brandão que, assim como vários de nós – inclusive este que vos fala – dá maior foco no 14 de maio de 1888.

Dizemos isso, porque tanto o 13 quanto o 14 de maio de 1888 foram igualmente nulos como momentos e dispositivos de inclusão da negritude. Não teve um programa social do governo para garantia de saúde, educação, segurança ou o básico de formação e profissionalização do negro para se tornar força de trabalho na economia para o crescimento da nação. Pra mim, Saga, rolou mesmo foi uma ciumeira, do tipo: “eles estavam me servindo outro dia mesmo por nada e eu ainda podia tratá-los como animais/ferramentas, porque deveria respeitar como gente e ainda pagar sua escola e salário?”. Pode parecer pessimismo, mas analise bem o contexto que você vê sentido no que falo.

A bem da verdade, até existe uma explicação, por exemplo, para o 13 de maio não ser feriado. E, apesar de a motivação não ser nada nobre, apenas politico-ideológica do famoso estadista Getúlio Vargas, pra nós, acaba servindo como uma coisa lógica. Se compararmos o 13 de maio com o 20 de novembro, em maio, não temos mesmo o que comemorar. Em novembro, temos todos os motivos pra abrir o verbo. Aliás, vocês já estão se preparando? Minha mente paranoica já prevê que farão algo pra atrapalhar. Dado o histórico de sempre ter um comercial usando lemas afirmativos pra vender papel higiênico, alguma personagem negra levando tapa de joelho ou alguma campanha de cosmético alegando racismo reverso de forma subliminar. Mas estou divagando de novo.

Então, vamos a reflexões sobre o 13 de maio e deixemos as celebrações e protestos para nossa data realmente significativa: o 20 de novembro (na verdade, o ano todo, né? Mas to falando apenas em datas aqui).

Mangueira – 1988

O samba clássico da verde-e-rosa começa em tom de lamento, mas como melodia nem sempre condiz com a letra, eu sempre vi mais como uma pergunta irônica sobre a eficácia da tal lei. Mas, aí, eles vê com essa aqui pra arrematar se alguém ficou na dúvida:

Pergunte ao Criador (pergunte ao criador) quem pintou esta aquarela
Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela
”.

Sacou? É exatamente o que eu vinha falando nos parágrafos anteriores. Pra que serviu?

Vila Isabel – 1988

Se o primeiro da lista já é emblemático, este aqui dispensa apresentações. Nele, a gente nem ouve falar de família real, imaginária ou tradicional brasileira. Apenas usa motivos afro pra celebrar que agora começou uma parte diferente da luta. E agradecendo a Zumbi pelo simbolismo e liderança. Se fosse feito hoje, certeza que ainda entravam outros como Dandara, mas vou chegar nisso mais à frente.

Império Serrano – 1969

Este aqui é um hino especial pra mim, particularmente. Além de motivos pessoais – e até familiares – esta letra fala dos heróis que também lutaram pela ansiada liberdade, mas fora dos portões do palácio. Mostra que não foi só o negro sentado aguardando a assinatura que mudou as coisas. Quilombolas, doutores, políticos, alunos, professores e outros grupos da sociedade também ajudaram. Também fora heróis da liberdade, como no título da canção. Porque, sabemos, a lei áurea foi só um momento isolado, perto do que já tinha sido feito até ali, né?

Tarja Preta – Falsa Abolição

Aqui, fugindo um pouco do samba, o rap apresenta suas armas (caneta e microfone, hein) e as meninas lançam com toda força o drama de ser negro num país que festeja uma farsa muito bem enfeitada e que provoca ou faz vista grossa para as mazelas alheias. Sobretudo do ponto de vista das mulheres, desde crianças.

Wilson Moreira – Jongueiro Cumba

Aqui, pra fechar em clima pra cima, um jongo. Além da melodia terna e envolvente, a letra, em uma estrofe, sugere exatamente o que falei neste texto: Reflexão. Dá uma ideia de que tanto 13 de maio quanto 20 de novembro são nossos e eu concordo, do ponto de vista de que o 13 seja ressignificado, saca? No meu caso específico, até por sincretismo religioso, eu já tenho uma visão um tanto solene, por meio da minha fé pessoal. Mas usemos esta data, além do questionamento e da problematização, para fazermos dele mais um momento de trazer para nosso contexto e esquecer essa badalada família real que não nos contemplou em nada.

Então, Saga, o 13 de maio presta?

Enfim, minha impressão é de que 13 de maio de 1888 tem mais a ver com uma forçada de amizade pra impor Isabel como heroína, meio que com um nome não oficial de “Dia da Princesa branca heroína, mas fala diferente pra não parecer ego de realeza branca escravista”. Como eu disse, eu internamente, já separei o momento de protestar contra esse ensino deprimente a que fui sujeitado e meu festejo pessoal. Óbvio que prefiro o 20 de novembro, mas eles já se apropriaram de tanta coisa nossa que é meu direito pegar algo deles e fazer do meu jeito. Rá!

Ah, obviamente que não citei Liberdade, Liberdade, que só faz exaltar exatamente o que protestamos e enaltece o golpe militar que expulsou a família real do poder e instaurou a república. Pra nós foi mais um “ok, agora em vez de chibata, vão nos bater com porretes e fuzis”. Como eu parafraseei no título do texto, citando Mangueira – 2019: “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel”, o que fazemos é nós por nós, no fim das contas. Mas é bom tirarmos as datas que quisermos pra debater e refletir. Na luta é que a gente se encontra, né?

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