A crítica ao funk é reflexo de 300 anos de marginalização do negro

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As Rainhas da Favela MC Carol e Taty Quebra Barraco - Foto: Reprodução Instagram

Recentemente, por alguns segundos, em uma apresentação do Grammy 2021, a popstar Cardi B performou ao som de um remix do DJ carioca Pedro Sampaio. E bastou pra que o produtor musical, Rick Bonadio, se manifestasse contra a empreitada. Ele lançou a seguinte afirmação: Já exportamos bossa nova, já exportamos samba-rock, Jobim, Ben Jor. Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de funk na apresentação de Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse ‘fica de quatro”. Bom, pra começo de conversa, música boa é um conceito muito subjetivo e amplo. Se ele não gosta e esta é sua opinião, ok, ele que lute. Mas quando alguém do gabarito profissional dele emite esse tipo de opinião para o público, em uma rede social, formador de opinião que é, ele tropeça feio, tropeça rude. E nem pra cair de quatro. Cai de poupança no chão, porque um de seus trabalhos mais famosos, entre Charlie Brown Jr., Titãs, Negra Li e algumas bandas emo (lembra a moda das bandas coloridas?) é Rodolfo & ET. Não estou julgando o talento nem a qualidade do trabalho, só mostro como Rick também passa distante dos citados Tom e Benjor que ele usou de carteirada pra espezinhar o funk exportado.

Ludmilla e Card B – Foto Reprodução Instagram

Fica a cara daquela galerinha MPB elitista – e vários roqueiros também – que utilizam uma pseudo sofisticação pra rebaixar os outros. Eu, por exemplo, sou eclético. Amo Chico Buarque, Caetano, Tim Maia, mas também adoro um funk. Tudo do funk? Não. Além de música ser coisa de embalar momentos pessoais, tendo cada tipo a pretexto e contexto. O funk em si, me agrada, em festas, seu som percussivo (sou um umbandista do samba, entende, rá). No meio de uma festa, comes e bebes, aquela zueira, eu não faço questão de saborear as linhas melódicas e a riqueza do jogo de palavras de um Gonzaguinha na voz de Bethânia, saca? O que eu sinto falta no funk é uma falta de mais letras engajadas no mainstream, tipo Mc Carol e seu Não Foi Cabral, de onde destaco o trecho: Zumbi dos palmares / Vitima de uma emboscada / Se não fosse a Dandara / Eu levava chicotada. Sei que o que o mercado pede é música de fácil aceitação e nenhuma contestação, mas isso é mais um problema de mercado e sociedade em geral do que do funk. Vamos prosseguir, porque isso não é uma análise musical do funk, mas uma crítica social ao preconceito.

Aliás, divagando um pouco aqui, já repararam na quantidade de negacionista do racismo insiste que o problema no Brasil é social e não racial? Prêmio de capitão óbvio pra essa galera, né? Porque a partir do momento que um determinado grupo é mais de 50% da população, todo problema que envolve esse grupo, pelo fato de ser esse grupo, o problema É social. É da sociedade. E, neste contexto, é racial. Voltando, o funk é a personificação do próprio negro. Ele nasce pobre, encontra sua maneira de se expressar, de se comportar e mesmo que demonstre uma forte vontade e aptidão pra fazer bonito, ainda é julgado como suspeito, criminoso e sem talento. Lembro de toda vez que isso acontece. Quando Ludmilla foi convidada a participar de uma série televisiva e foi criticada por Samantha Schmutz por não ser atriz formada. Nego Ney viralizou na internet e chegou a ser homenageado pela torcida do Flamengo e seus jogadores. O que os dois têm em comum? Julgamentos por motivo nenhum, só porque apareceram fazendo algo positivo sem pedir permissão a quem estava doido pra estar ali naquele lugar. Se não, já teriam pipocado críticas desse naipe para outros artistas não negros, não de origem pobre nos mesmos tipos de situação.

Marginalização Histórica

É uma reformulação das medidas de restrição social ao negro no pós-abolição. A supracitada Ludmilla, que é a mulher negra mais ouvida no Spotify, falou aqui mesmo ao site, que precisamos discutir o porquê de o gênero musical ainda ser marginalizado, mesmo depois de tantas conquistas. Simples assim: É som de preto… e nem preciso prosseguir. Antes que falem que é recalque, vitimismo ou mimimismo (hein?!), vamos analisar o samba, que tem início de trajetória parecido. Lá no pós-abolição, o samba, a capoeira, o candomblé, entre outras manifestações tipicamente negras eram perseguidas, criminalizadas ou, ao menos, vistas como selvageria em pleno crescimento urbano do Rio de Janeiro. O funk é bem mais recente que isso. Nos idos da década de 1980, era marginalizado e chegou a ter projetos de criminalizá-lo. “Ain, Saga, mas os funkeiros brigavam entre si”, eu sei, gafanhoto. Mas não seria esse muito mais um problema anterior de inclusão social, educação e segurança pública? Se fosse assim, tão simples, era mais fácil proibir o rock, o futebol e até aquela geladinha de fim de tarde, porque em todos esses cenários já ocorreram violência, inclusive com mortes famosas na linha do tempo. Percebe como quando é o funk, quando é a coisa do negro, sempre fazem parecer que o natural é extirpar? É assim que as armas agem na carne negra, na hora do guarda-chuva ou da furadeira virarem armas suspeitas.

Em linhas gerais, o funk evoluiu, fluiu, soube se adaptar aos novos tempos – ao contrário das justificativas racistas pra silenciá-lo – e está aí. Veio lá de baixo, mostrou a cara e hoje, já se fala em ‘funk brasileiro’ dado o alcance e repercussão que tem tido em mídias internéticas e mundiais. Há alguns anos, era o ‘funk carioca’, como se quisessem deixar claro que não era um elemento cultural válido e sim um nicho criado à revelia dos deuses da música. Mas é problema das elites intelectualóides, né? Que não aceitam o pobre abrir a porta da frente e fazer bonito sem botar defeito. Que ousadia, né? Chegar assim, sem a chancela do ser superior, que age como um ciumento contrariado. Pois é. Voltando ao comentário de Rick Bonadio, além de gratuitamente amargo, ele não lançou olhares para a realidade de onde o funk é oriundo. Ver letras sexualizadas – e de um cotidiano até supérfluo, por vezes, admito – dizer que aquilo é lixo é cruel. O funk, além da inclusão social em si, ele é representativo. Quantos moleques sem oportunidades na vida não estariam aí, com a mente a espera de algo intenso, quando veem um jogador de futebol brilhar no exterior? O funk é a mesma coisa.

A volta por cima

O problema é que essa crítica é a ponta do iceberg, pois antes disso, fica uma torcida, um pensamento negativo, proibitivo pra cima do que o negro/funk tem de bom a oferecer… Mas, se o negro/funk se mostra seduzido pelo mundo da vida errada, aí, é que descem a lenha – e a bala – dizendo que só podia ser assim, que não presta, que é ruim, que é melhor eliminar. Genocídio negro também se faz culturalmente. Aliás, em todas as frentes, desde as leis de proibição a estudos e terras que nossos ancestrais sofreram após o que se chamou abolição, até chegarmos hoje e ver o tal do som de preto lá na gringa virando notícia. Notícia positiva, diga-se.  Porque, mesmo num mundo onde a arte pode salvar uma vida de uma droga, de uma arma, ainda assim, o negro está vulnerável como o suspeito, como aquele que carrega um alvo “invisível” no peito. Lembremos, por um momento, de Gualter Rocha (conhecido como Gambá), aclamado como rei do passinho do funk e Douglas Pereira, o DG, dançarino do programa Esquenta. Ambos assassinados em 2012 e 2014, respectivamente, como “suspeitos”. É dureza, gente. Então, quando alguém consegue ultrapassar essa arrebentação, eu, particularmente, vibro demais.

E o funk vingou tanto que a quantidade de gente que nem é preto e nem pobre tem se multiplicado vertiginosamente no estilo musical. Às vezes, assisto a um clipe e nem sei se é no Brasil, mas isso é papo pra outra oportunidade. Então, os lugares estão aí pra ser ocupados mesmo e sabemos que quem já estava lá pelo simples privilégio histórico armado, não fica à vontade. “É som de preto…”, né, gente? O funk chegou, é hoje, é todo dia, é uma onda diferente, é rainha da favela, poderosa, glamurosa e pode tocar em qualquer lugar.

E quem não gostou, muda de canal. Quem iria num restaurante reclamar de um prato que não gosta, em vez de procurar sua refeição favorita? Se doer por algo assim diz mais sobre quem reclama do que o alvo da crítica.  

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