A Casa do Nando é quilombo urbano, espaço de resistência negra

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Fernando Luiz, empresário, produtor cultural, chef, músico e ativista negro e pai, é de família preta retinta, por parte de pai e de mãe. De tradicionais casas de candomblé, cada. Crescido em uma escola de freiras, onde descobriu o – e sofreu – racismo estrutural e religioso por parte de colegas e professores. Tendo perdido a mãe assassinada, com apenas 15 anos, encontrou resposta para seus anseios raciais se filiando ao Movimento Negro. Foi presidente da AMES Rio (Associação Municipal de Estudantes do Rio de Janeiro), onde levantou debates raciais, por exemplo, cotas.

Nesta entrevista, você vai conhecer – pra quem não está por dentro – um pouco do contexto que o levou a criar a Casa do Nando, localizada no Centro do Rio de Janeiro. Lugar que já teve desde canjas casuais de artistas conceituados – como o compositor Mombaça – até roda de conversa com a vereadora Marielle Franco. Aquele lugar que já passou por mudanças, incêndio, vandalismo com ofensas racistas e continua mais forte a cada dia. Sem mais enrolação, vamos ao papo.

MUNDO NEGRO – A Casa do Nando foi algo planejado desde o começo?

NANDO – A ideia não surgiu assim. Tudo aconteceu quando fui morar na Pedra do Sal. A gente começou a fazer rateio (para a bebida), eu fazia a comida e a galera ia pra lá comer depois. E a gente fazia música. Os músicos da Pedra, outros amigos, que são músicos também… Íamos debatendo sobre questão política, questão racial…

MUNDO NEGRO – Os encontros já eram frequentes?

NANDO – Tinha semana que a gente fazia e tinha semana que a gente não fazia. Todo mundo falava pra eu comercializar, mas meu trabalho era muito puxado na época. Era sócio de uma empresa.

MUNDO NEGRO – E como você conciliou as coisas?

NANDO – A empresa quebrou. Eu tinha planos de ir pra São Paulo, tava com um projeto. Eu tava numa de trabalhar pra fazer grana pra ir, mas acabou que deu tudo errado, e eu fiquei mal pra caramba.

MUNDO NEGRO – E como você lidou com isso?

NANDO – No dia 30 de dezembro de 2013, era uma segunda-feira, seria o último Samba da Pedra do Sal. Eu fui pra casa, fiquei esperando a hora do samba. Pensando que tudo poderia dar errado, mas o samba seria ali minha válvula de escape, como sempre foi na minha vida, né? Seria o local onde eu ia parar pra repensar e decidir o que eu faria da minha vida dali pra frente.

MUNDO NEGRO – Dezembro é um mês que costuma chover forte e ficava aquele sobreaviso de que só teria samba se a chuva fosse, pelo menos, moderada.

NANDO – Acabou que a gente desceu. O samba não começava, tava uma ventania muito forte, ameaça de chuva e gente falando que não ia chover. Todo mundo esperando o samba. Acabou que a lona rasgou e aí, “faz samba, não faz”, decidiram fazer samba.

MUNDO NEGRO –  E deu certo?

NANDO – Na primeira música, a chuva caiu. Eu chamei alguns amigos pra ir lá pra casa, eles já tinham comprado cerveja, convidaram outros amigos, eu falei com o pessoal da roda de samba e eles levaram o samba inteiro pra minha casa.

Nesse dia, algumas pessoas me pilhavam muito pra eu comercializar comida, bebida, dentro de casa. Pra que as pessoas pudessem ir e a gente tivesse sempre, ali, aquele espaço. Nem sempre dava pra fazer vaquinha.

MUNDO NEGRO – Esse já era um protótipo do que viria a ser a Casa, né?

NANDO – O objetivo era esse, era a gente ter um espaço ali. Ter a resenha que a gente fazia sempre, que com a organização prévia não tava funcionando. Então se eu vendesse, sempre teria e as pessoas sempre iriam. Colocaram muita pilha mesmo, e aí, eu comecei a me organizar em janeiro. Em fevereiro de 2014, a gente começou nesse processo.

MUNDO NEGRO – E qual foi o primeiro passo?

NANDO – Eu falei, pra um amigo, o que eu tava querendo fazer: “acho que eu vou colocar um nome na casa”. E o amigo falou: “não, cara, a casa já tem nome é A Casa do Nando”. Então beleza.  Aí, começamos a comercializar. Na segunda semana, a Casa já tava lotada, com gente pra caramba. E as pessoas fazendo música na madrugada, os músicos de samba queriam tocar outras coisas, queiram mostrar composições próprias e muita coisa surgiu.

MUNDO NEGRO – Ver um empreendimento dar certo fez passar um filme sobre tudo o que você passou até ali?

NANDO – Um dia, eu acordei de manhã, com uma série de coisas na minha cabeça, que tinham acontecido e tal. Eu abri a porta de casa e olhei a Pedra. Eu lembrei a primeira vez que fui à Pedra do sal: 20/11/1997. Eu tinha 15 anos de idade. Escondido da minha família. Eu não andava pra muito longe de casa. Saí como se fosse pra escola, peguei o ônibus e fui pra Praça XI, pro busto de Zumbi.

MUNDO NEGRO – Porquê especificamente pra lá?

NANDO – Porque eu queria fazer parte do Movimento Negro, queria encontrar pessoas do movimento negro. Peguei o ônibus, pedi ao motorista pra me deixar na Praça XI e vi toda a movimentação.

MUNDO NEGRO – Como você fez, em meio a tanta gente que você não conhecia, tão novo em um lugar que você não frequentava?

NANDO – Comecei a perguntar às pessoas como é que eu fazia pra fazer parte do Movimento Negro. No MNU, foi a primeira filiação que eu tive na vida. Saindo dali, me levaram para a Pedra do Sal, me deram um prato de feijoada e refrigerante. Algumas pessoas que eu conheci na luta do Movimento, passaram a frequentar a casa.

MUNDO NEGRO – Além da causa social/racial, há também um fundamento religioso na Casa, né?

 Lembrei que na Pedra do Sal tem um Xangô assentado pelo (Ilê Axé) Opó Afonjá, quando chegou no Rio. Apesar de eu ser filho de Oxum, sou ogã de Xangô. Na verdade, sou ogâ de Ayrá e aqui no Brasil, algumas casas cultuam como Xangô. Eu pensei no momento que eu tava vivendo, olhei pra aquela pedra, botei minha cabeça naquela pedra e bati cabeça pra Xangô. Ali veio a solução da dificuldade que eu tava passando.

MUNDO NEGRO – Isso é quase poético, essa fé e determinação. Como você avalia hoje, essa trajetória?

NANDO – Logo em seguida (a bater cabeça para o Xangô da Pedra) me veio o insight de que a Casa do Nando não é um comércio, sabe? Reunindo todas aquelas pessoas, não é um espaço de entretenimento (apenas). É um local de resistência e de luta do povo preto. E aí, nós passamos a fazer varias atividades voltadas pra questão racial.

MUNDO NEGRO – Que tipo de atividades?

NANDO – Eram rodas de conversa, cinema, oficinas, e varias outras atividades. Era uma reunião de gente preta, de sambista, de músico, de artista. A única coisa, na verdade, a que eu me propus, era que esse espaço fosse de protagonismo negro, onde o artista tivesse liberdade. Um espaço onde a diversidade seja mais do que respeitada. Foi isso que eu me propus logo no início.

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